ReportagemMeio Ambiente
Quanto carbono cabe num LP: a indústria do vinil refez a conta
Em dois anos, a indústria do vinil mediu, corrigiu e mediu de novo a pegada de um LP. O número caiu, a promessa do PVC de origem biológica encolheu e a prensagem por injeção entrou em cena.

Um LP de 140 gramas, prensado em PVC na Europa, no Reino Unido ou nos Estados Unidos, emite em média 0,93 kg de CO₂ equivalente até sair da fábrica. O número foi publicado em junho de 2026 e fecha, por ora, uma conta que a indústria do vinil vem fazendo em público desde 2024, com uma correção no meio do caminho.
2024: a primeira medida
O primeiro relatório de pegada de carbono do setor foi assinado pela VRMA, associação de fabricantes de discos, e pela Vinyl Alliance, entidade de empresas do mercado do vinil. O estudo usou dados de uma fábrica de discos, uma fabricante de matrizes e um estúdio de corte, e chegou a cerca de 1,15 kg de CO₂e por disco, do berço ao portão da fábrica. Esse número é a média de cinco formatos; o LP de 140 gramas, sozinho, ficou em 1,07 kg. Metade da pegada vinha do composto de PVC, 30% da energia gasta na fábrica e 13% da embalagem impressa.
O relatório listou cinco medidas. A primeira era abandonar o frete aéreo: mandar um disco de avião da Europa para a América soma 1,36 kg de CO₂e, mais do que o próprio disco emitiu para ser fabricado; para a Austrália, 3,46 kg. As outras quatro eram trocar o PVC comum por um composto bio-atribuído, prensar em 140 gramas, simplificar a embalagem e usar energia sem carbono.
O documento também mediu o custo de cada escolha de formato. Um disco de 180 gramas tem pegada 14% maior que um de 140; o de 200 gramas, 19%; o splatter, de cores respingadas, 26%, porque pede mais PVC. Uma capa dupla para um disco só acrescenta de 10% a 15%. A conclusão do próprio relatório é que o disco preto de 140 gramas é a melhor escolha em carbono. Uma das razões: quase todas as fábricas reaproveitam a maior parte da rebarba do PVC preto, enquanto a dos discos coloridos e splatter costuma ir para a reciclagem, fora da produção de discos.
2025: a correção
A medida mais chamativa era a do PVC bio-atribuído, que prometia cortar cerca de 44% da pegada. Em 30 de maio de 2025, a Vinyl Alliance publicou uma atualização na página do relatório. Explicou que o estudo tinha medido a pegada no nível das empresas, e não de cada produto, e que faltava validar dados de fornecedores. E admitiu que a economia do PVC bio-atribuído, no nível do produto, estava “superestimada e poderia induzir o leitor a erro” (tradução da Redação).
A referência citada para a revisão é o padrão do GHG Protocol para o ciclo de vida de produtos. A entidade formou então um grupo voluntário de especialistas independentes e, com o Music Climate Pact, passou a apoiar uma série de pegadas de produto revisadas por pares e calculadas por terceiros qualificados.
2026: a conta por produto
O Music Climate Pact é um pacto climático criado por gravadoras signatárias e apoiadores da indústria, convocado pela AIM, a associação britânica dos selos independentes, em colaboração com a BPI, a associação das gravadoras do Reino Unido. Em 18 de junho de 2026, publicou seu relatório anual. O grupo de trabalho de vinil, coordenado por Ian Stanton, da Beggars Group, e John Service, da Key Production, desenvolveu com a Vinyl Alliance e a consultoria Climate Partner um programa de fornecedores em duas fases. A primeira calculou pegadas de produto para LPs, com um método comum.
Os resultados, do berço ao portão da fábrica:
- disco de PVC de 140 gramas, prensado do jeito tradicional: 0,93 kg de CO₂e;
- disco de PET moldado por injeção: 0,54 kg;
- disco de PET reciclado moldado por injeção: 0,38 kg.
A diferença do PET está sobretudo no processo. A prensagem tradicional depende de vapor e calor de caldeiras a gás. A moldagem por injeção é toda elétrica e usa cerca de 85% menos energia. O relatório também estimou atalhos para quem continua no PVC: eletricidade renovável pode reduzir as emissões da prensagem em cerca de 12%, e PVC reciclado, em 16%. Com PET reciclado, o corte chega a 30%.
Um registro de transparência: John Service, um dos coordenadores do grupo, é diretor de estratégia e sustentabilidade da Key Production, empresa que passou a oferecer discos de PET em abril, como se lê mais abaixo.
Os 1,15 kg de 2024 e os 0,93 kg de 2026 não medem exatamente a mesma coisa: o primeiro partiu de dados de empresas e é a média de cinco formatos; o segundo vem de pegadas de produto. A direção, porém, é a que o próprio pacto registra: fabricar discos emite bem menos do que se pensava, e há cortes relativamente fáceis ainda por fazer.
O que já está no mercado
Três caminhos aparecem nas fábricas, com graus diferentes de comprovação.
PET por injeção. Em 8 de abril de 2026, a Key Production, agência britânica de fabricação de formatos físicos de música e embalagens, certificada como B Corp, lançou no mercado europeu discos moldados por injeção em PET, uma resina leve e reciclável.
PVC de origem biológica. A fábrica alemã optimal media vende o BioVinyl, em que o petróleo da cadeia do PVC é substituído por resíduos como óleo de cozinha usado, ponto de partida para a produção do etileno. Quimicamente, é o mesmo PVC: não se decompõe, não é compostável e soa igual ao comum, segundo a empresa. A certificação é ISCC PLUS, pelo método de balanço de massa, em que a matéria-prima renovável é registrada em quantidade e atribuída ao produto final por cálculo.
A empresa anuncia uma pegada cerca de 57% menor, validada pela ClimatePartner UK. A nota de rodapé mostra como se chega ao número: são 0,40 kg por disco quando se desconta o carbono biogênico sequestrado, e 0,58 kg sem esse desconto, contra 0,93 kg da média do PVC convencional. Sem o desconto, a redução fica perto de 38%, pela conta da Redação. Ainda é um corte, mas menor do que o anunciado na primeira linha.
Bioplástico vegetal. A Evolution Music desenvolve o Evovinyl, um biopolímero de origem vegetal feito a partir de resíduos da cana-de-açúcar e apresentado como compostável. Em novembro de 2025, a empresa anunciou a entrada em comercialização, ainda restrita às prensas manuais. Em junho de 2026, informou que a versão mais nova do material, testada em maio, passou a funcionar de forma confiável também nas prensas automáticas, que são a base da produção comercial, e ressalvou que ainda há trabalho pela frente. O material concorreu na categoria de inovação para o consumidor do Music Week Awards de 2026; na cerimônia de 7 de maio, segundo a própria empresa, o prêmio ficou com a RCA. Nas fontes consultadas pela Redação, não há pegada de produto validada publicada para o Evovinyl.
O que cabe a quem compra
Para quem coleciona, a ordem de prioridade que sai desses relatórios é clara. O que mais pesa é o avião: segundo o relatório de 2024, quando um selo prensa num só lugar e manda os discos de avião para o mundo, as emissões dessa viagem superam qualquer economia feita na fábrica. Por isso, evitar o avião, com discos prensados perto de quem vai comprar ou trazidos de navio, faz mais diferença do que qualquer material novo. Depois vêm as escolhas de formato: 140 gramas, preto, capa simples. O material alternativo, PET ou PVC de origem biológica, é o terceiro passo, e cada número anunciado merece a leitura da nota de rodapé.
Fontes
- The first Vinyl Record Industry Carbon Footprint Report — Vinyl Alliance. Acesso em 30/09/2026.
- Vinyl Record Industry: First carbon footprinting report — VRMA e Vinyl Alliance. Acesso em 30/09/2026.
- The Music Climate Pact publishes its Annual Report — Music Climate Pact. Acesso em 30/09/2026.
- Music Climate Pact highlights areas of progress with labels' increasing focus on streaming impact — Music Week. Acesso em 30/09/2026.
- Vinyl — Music Climate Pact. Acesso em 30/09/2026.
- Key Production unveils Injection Moulded Records and Tiny Vinyl to drive the next generation of sustainability-focused physical music formats — Key Production. Acesso em 30/09/2026.
- BioVinyl: Vinyl records made from bio-based PVC — optimal media. Acesso em 30/09/2026.
- Evovinyl Launch: The World's First Bioplastic Vinyl LP Moves Into Commercialisation — Evolution Music. Acesso em 30/09/2026.
- May 2026: Recognition, Connection and a Material Breakthrough — Evolution Music. Acesso em 30/09/2026.
- PMC And EvoVinyl Nomination For Music Week Awards 2026 — Hifi Pig. Acesso em 30/09/2026.
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