ReportagemMeio Ambiente
Rock in Rio põe a viagem do público na conta do carbono
Na edição de setembro, o festival incluiu na compensação o deslocamento de quem foi à Cidade do Rock. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, é nesse trecho que está a maior parte da pegada da música ao vivo, segundo um estudo do MIT. O número final de 2026 ainda não apareceu.

O Rock in Rio encerrou a edição brasileira de 2026 no domingo, 13 de setembro, depois de sete dias de programação na Cidade do Rock, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. O balanço oficial, divulgado dois dias depois, registra mais de 700 mil pessoas. Quase metade delas, 49%, veio de fora do estado do Rio, e houve visitantes de 89 países.
Esses dois números ajudam a entender a mudança mais relevante da edição para o meio ambiente. Pela primeira vez, a conta de carbono do festival não parou no portão. Em parceria com a AXIA Energia, a organização decidiu incluir na compensação as viagens de ida e volta feitas pelo público, por fornecedores e por funcionários, e não apenas o que acontece dentro do recinto.
Onde está o peso
A escolha vai na mesma direção dos dados mais recentes sobre o tema. Em dezembro de 2025, o Climate Machine, iniciativa do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), publicou o primeiro cálculo anual das emissões de toda a música ao vivo nos Estados Unidos e no Reino Unido. O estudo, apoiado por Coldplay, Warner Music Group, Live Nation e Hope Solutions, analisou dados de mais de 80 mil eventos.
A conclusão central é que a viagem do público é a maior fonte de emissões da música ao vivo: 62% do total nos Estados Unidos e 77% no Reino Unido, em quase todos os tipos de evento. Comida e bebida vêm em seguida, com 16,9% nos EUA e 7,6% no Reino Unido, puxadas por produtos de origem animal. Segundo o relatório, cardápios à base de plantas podem cortar essa fatia em 40% ou mais. Quando a viagem do público sai da conta, aparece o transporte de carga: caminhões respondem por 14% das emissões nos EUA, e o frete aéreo por quase 35% no Reino Unido.
Em escala nacional, a música ao vivo pesa pouco: 0,2% das emissões americanas e 1,1% das britânicas. O argumento do comunicado que apresentou o estudo é que o setor tem alcance cultural para influenciar hábitos muito além do próprio tamanho.
Como a conta foi montada
O festival neutraliza desde 2006 as emissões produzidas no recinto da Cidade do Rock, e a organização diz que nenhum grande festival do mundo tinha feito isso antes. A estimativa para 2026, calculada a partir dos números da edição de 2024, é de cerca de 50 mil toneladas de CO₂ equivalente. Na comparação feita pelas empresas, o volume corresponde a um ano de uso de 18.826 carros movidos a combustível fóssil no Brasil.
A compensação tem três frentes:
- Mudas e sementes. São 15 mil mudas de espécies nativas, que devem responder por 6.328 toneladas. Elas saem da Ilha de Germoplasma, uma área de 129 hectares com cerca de 100 mil árvores, de 220 espécies, criada como parte do licenciamento ambiental da usina de Tucuruí, no Pará. Quatro mil das mudas são de espécies usadas na fabricação de instrumentos musicais. A AXIA também doa mais de 1 milhão de sementes nativas.
- Créditos de carbono. A maior parte das 43.672 toneladas restantes fica com créditos da Usina Hidrelétrica Teles Pires, na divisa entre Pará e Mato Grosso. Segundo a AXIA, o projeto da usina está registrado desde 2012 no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, da ONU, e gera créditos desde que ela começou a operar, em 2015.
- Certificados de energia. Cerca de 4 mil certificados RECFY, um para cada megawatt-hora que o festival deve consumir. Segundo a AXIA, o processo tem auditoria da Bureau Veritas e registro em blockchain.
Para medir o trajeto, o plano anunciado em julho era aplicar questionários ao público, a fornecedores e a funcionários ao longo dos sete dias, com perguntas sobre como cada pessoa se deslocou e quantos quilômetros percorreu. Os dados seriam consolidados e validados depois do festival. Até 30 de setembro, a Redação não encontrou esse resultado publicado. O balanço oficial de 15 de setembro fala de público, shows e economia, e a nota da AXIA sobre o prêmio que recebeu no festival, de 14 de setembro, também não traz número de emissões. Os 50 mil são, por enquanto, uma estimativa feita com dados de dois anos atrás.
Roberta Medina, vice-presidente executiva da Rock World, empresa dona do festival, resumiu a mudança, em declaração publicada pela Exame, como a decisão de “assumir responsabilidade por toda a jornada”.
Compensar não é o mesmo que reduzir
Vale separar as duas coisas. Compensar é equilibrar a conta depois que a emissão aconteceu, com árvores, créditos ou certificados. Reduzir é emitir menos. O estudo do MIT aponta para o segundo caminho: se a viagem é o maior peso, o que mais muda o resultado é a forma como as pessoas chegam.
O esquema de transporte anunciado para esta edição oferecia alternativas ao carro. A estação Jardim Oceânico do metrô ficaria aberta 24 horas para embarque, ligada ao BRT Expresso Rock in Rio, com ônibus sem paradas ou com poucas paradas até a estação em frente à Cidade do Rock. O serviço Primeira Classe levaria ônibus executivos de pontos do Rio, da Região Metropolitana e de cidades de São Paulo e Minas Gerais. Quanto de cada modal o público usou de fato é o que os questionários devem mostrar.
No último dia, a AXIA recebeu no Palco Mundo o Destaque Sustentável, reconhecimento do Prêmio Rock in Rio Atitude Sustentável 3.0, que o festival criou em 2008 para seus parceiros. A justificativa, segundo a AXIA e a Promoview, foi a ampliação da conta de carbono para fora da Cidade do Rock. A próxima edição brasileira está marcada para setembro de 2028.
O que acompanhar
Três perguntas ficam em aberto até a publicação do inventário final: quanto a viagem do público pesou de fato em 2026, que parte coube ao avião e ao carro, e se o total ficou perto da estimativa de 50 mil toneladas. Para quem vai a shows, o estudo do MIT, feito com dados dos Estados Unidos e do Reino Unido, deixa um recado direto: nesses dois países, o trecho de casa até o palco é a maior parte da pegada de um show, e é a parte que depende de cada um.
Fontes
- ROCK IN RIO FECHA 2026 COM 700 MIL PESSOAS E UMA HISTÓRIA QUE ATRAVESSA O ATLÂNTICO — Rock in Rio (sala de imprensa oficial). Acesso em 30/09/2026.
- Rock in Rio passa a neutralizar a pegada de carbono do fã — de casa à Cidade do Rock — Exame. Acesso em 30/09/2026.
- AXIA é parceira de sustentabilidade do Rock in Rio 2026 — AXIA Energia. Acesso em 30/09/2026.
- AXIA Energia conquista dois prêmios por iniciativas de sustentabilidade no Rock in Rio 2026 — AXIA Energia. Acesso em 30/09/2026.
- Rock in Rio 2026 vai compensar emissões de carbono além da Cidade do Rock — Aurora Cultural. Acesso em 30/09/2026.
- AXIA leva o Destaque Sustentável do Rock in Rio 2026 e o Reconhecimento Promoview de Mais Sustentável — Promoview. Acesso em 30/09/2026.
- Rock in Rio 2026 terá transporte especial e ação de sustentabilidade — Terra. Acesso em 30/09/2026.
- MIT Climate Machine with support from Coldplay, Warner Music Group, Live Nation, and Hope Solutions release first ever total emissions of live music in US and UK — PR Newswire (comunicado do MIT Climate Machine). Acesso em 30/09/2026.
- Backed by Coldplay, Warner Music and Live Nation, MIT's Climate Machine reports on US-UK emissions — Music Week. Acesso em 30/09/2026.
- MIT Climate Machine — MIT Climate Machine. Acesso em 30/09/2026.
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