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G-funk: quando Los Angeles desacelerou o funk

Entre 1992 e 1994, Dr. Dre, Snoop Dogg e Warren G reprocessaram discos de funk e soul de uma ou duas décadas antes e fizeram deles o som da Califórnia. O método ficou; o contexto também precisa ficar.

Por Publicado em Leitura de 5 min
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Imagem Puressência: toca-discos antigo com um vinil sobre a laje de um prédio, com plantas nas frestas e a cidade ao pôr do sol
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Capa tipográfica da Revista Puressência

Existe um som que muita gente reconhece em dois compassos: um groove lento, um baixo grave e redondo, vozes femininas ao fundo e, por cima de tudo, uma linha de sintetizador aguda que desliza entre as notas como um assobio. Esse som tem nome, G-funk, abreviação de gangsta funk, e tem data de chegada ao grande público: 15 de dezembro de 1992, quando saiu The Chronic, primeiro álbum solo de Dr. Dre.

O G-funk costuma ser contado como invenção de um produtor. É mais útil contá-lo como método. Ele parte de discos de funk e soul dos anos 1970 e do começo dos 1980, desacelera o andamento, troca o recorte pela regravação quando convém e junta tudo num estúdio com um grupo pequeno de músicos, rappers e cantores. Vale olhar cada etapa.

A semente

Em 1973, a banda de funk Ohio Players lançou “Funky Worm”. Na faixa, o tecladista Walter “Junie” Morrison toca solos de sintetizador ARP agudos e anasalados. Mais de uma década depois, esse timbre reapareceu em Los Angeles. O N.W.A, grupo em que Dr. Dre era produtor, sampleou esses solos em “Dope Man”, de 1987, e em “Gangsta Gangsta”, do ano seguinte. A partir dali, produtores da Costa Oeste passaram a imitar aquele som em seus próprios teclados. É desse solo que vem, em boa parte, o assobio do G-funk.

A outra raiz é o P-Funk, o funk carregado de sintetizadores que George Clinton, o Parliament e o Funkadelic fizeram nos anos 1970. O G-funk pega esse vocabulário e o põe num andamento mais arrastado, feito para o carro e não para a pista.

O selo e o disco

No começo dos anos 1990, Dr. Dre, The D.O.C. e Suge Knight estiveram entre os fundadores da Death Row Records, em Los Angeles. Dre estava saindo do N.W.A e do selo Ruthless. A Interscope entrou com o dinheiro e, em troca, ficou com a distribuição. O primeiro álbum da Death Row foi The Chronic.

O disco apresentou uma geração inteira: Snoop Doggy Dogg (depois só Snoop Dogg), Kurupt, Daz Dillinger, The Lady of Rage, RBX, Nate Dogg. Segundo a resenha faixa a faixa que a Billboard publicou nos 20 anos do álbum, Snoop, Daz e The D.O.C. cuidaram de boa parte das letras. O mesmo texto atribui a virada musical a três escolhas de Dre: andamento mais lento, samples de discos de funk como os do Parliament-Funkadelic e camadas grossas de sintetizador.

O primeiro single, “Nuthin’ but a ‘G’ Thang”, com Snoop, usa um sample de “I Want’a Do Something Freaky to You”, de Leon Haywood, e chegou ao segundo lugar da parada Hot 100 da Billboard. “Let Me Ride”, terceiro single, faz outra coisa: em vez de recortar, regrava. A faixa interpola “Mothership Connection”, do Parliament, e tem baixo tocado ao vivo por Colin Wolfe, multi-instrumentista que trabalhou com Dre no álbum. “Let Me Ride” deu a Dre o Grammy de melhor performance solo de rap em 1994.

Essa diferença entre samplear e tocar de novo importa. Regravar uma linha de funk permite ajustar andamento e timbre sem depender da gravação original. Foi assim que o G-funk conseguiu soar ao mesmo tempo familiar e novo: as melodias eram de outra década, mas o corpo do som era do começo dos anos 1990.

O que o disco também carrega

The Chronic não é só um disco de timbres. A mesma resenha da Billboard aponta a violência niilista do disco, que tem policiais, mulheres e os desafetos de Dre como alvos recorrentes. Lembra também que Dre começou o projeto sob o peso da agressão à apresentadora Dee Barnes (o episódio é de 1991, segundo a NPR), caso em que ele não contestou a acusação e recebeu dois anos de liberdade condicional. Em 2015, Dre pediu desculpas publicamente às mulheres que machucou, segundo a NPR. Uma história do G-funk que deixa isso de fora conta só metade do que aconteceu naquele estúdio.

A continuação

O segundo passo veio em 23 de novembro de 1993, com Doggystyle, estreia solo de Snoop, também produzido por Dre e lançado pela Death Row e pela Interscope. O disco entrou direto no primeiro lugar da parada de álbuns da Billboard e vendeu cerca de 800 mil cópias na primeira semana, então um recorde para uma estreia de rap, segundo a Billboard.

O terceiro passo saiu de Long Beach. Warren G, irmão por afinidade de Dre, tinha formado com Snoop e Nate Dogg o grupo 213, nome tirado do código de área da região. Em 28 de abril de 1994, ele e Nate Dogg lançaram “Regulate”, na trilha do filme Above the Rim. A base vem de “I Keep Forgettin’ (Every Time You’re Near)”, sucesso de Michael McDonald de 1982. A música chegou ao segundo lugar da Hot 100, e o álbum de estreia de Warren G, Regulate… G Funk Era, ao segundo lugar da parada de álbuns.

A origem do sample diz muito. Em 2014, Warren G contou à Billboard que pegou o disco de McDonald num lote de vinis de um vendedor na porta de uma lanchonete em Los Angeles, e que soube na hora que precisava samplear aquela faixa, “um disco que minha madrasta e meu pai tocavam”. Ali está o método inteiro: a coleção de discos dos pais, ouvida de novo por um filho que tinha uma Akai MPC60.

Arquivo

Em março de 2020, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos anunciou a inclusão de The Chronic no National Recording Registry, a lista de gravações preservadas por importância cultural, histórica ou estética. Era, naquela turma, o registro mais recente de música pop, ao lado de “I Will Always Love You”, de Whitney Houston, também de 1992.

A Death Row, por sua vez, passou por várias mãos. Em fevereiro de 2022, Snoop Dogg comprou a marca do selo do grupo MNRK, controlado por um fundo da Blackstone. Segundo a Deadline, o negócio não incluía, naquele momento, os direitos sobre as músicas. O artista que estreou no primeiro disco do selo passou a ser dono do nome.

O que fica

Tirando o mito e a violência, o G-funk deixa uma lição de produção que continua válida. Ouvir o que já existe em casa. Escolher uma linha e tocá-la de novo, no andamento certo para o lugar onde a música vai tocar. Juntar poucas pessoas num mesmo estúdio e dividir o ofício: uma escreve, outra canta o refrão, outra toca o baixo. O resultado foi o som de uma cidade num período curto, de 1992 a 1994, que muita gente ainda reconhece como Califórnia em dois compassos.

Fontes

  1. G-funk — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
  2. Talking Style: G-Funk — No Treble. Acesso em 30/09/2026.
  3. Funky Worm — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
  4. Death Row Records — Research Starters — EBSCO Research Starters. Acesso em 30/09/2026.
  5. Death Row Records — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
  6. Dr. Dre, 'The Chronic' at 20: Classic Track-By-Track Review — Billboard. Acesso em 30/09/2026.
  7. The Chronic — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
  8. Nuthin' but a 'G' Thang — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
  9. Hip Hop Mogul Dr. Dre Apologizes to Women He's Hurt: 'I Deeply Regret What I Did' — NPR. Acesso em 30/09/2026.
  10. Snoop Dogg to Celebrate 'Doggystyle' With 30th Anniversary Event — Billboard. Acesso em 30/09/2026.
  11. Snoop Dogg's Biggest Songs: 15 Tracks That Display His Charismatic Style And Range — Recording Academy (GRAMMY.com). Acesso em 30/09/2026.
  12. Doggystyle — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
  13. 'Regulate' At 20: Warren G & Michael McDonald Discuss the G-Funk Jam — Billboard. Acesso em 30/09/2026.
  14. Remembering The G-Funk Era — Recording Academy (GRAMMY.com). Acesso em 30/09/2026.
  15. 2020's National Recording Registry Entries Range From Dr. Dre To Mister Rogers — NPR. Acesso em 30/09/2026.
  16. National Recording Registry Inducts Classics by Dr. Dre, Mister Rogers and Cheap Trick — Variety. Acesso em 30/09/2026.
  17. Snoop Dogg Buys Death Row Records Brand Just Days Before Super Bowl — Deadline. Acesso em 30/09/2026.
  18. Snoop Dogg now owns Death Row Records — NPR Illinois. Acesso em 30/09/2026.

Texto produzido com apoio de IA. Os fatos foram conferidos fonte por fonte; não houve revisão humana do texto: a publicação foi autorizada pelo dono da revista em 1º de outubro de 2026 (registro de decisões, 2026-10-01T00:39:14-03:00).

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