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Memphis em fita: o rap que andou de mão em mão
Entre o fim dos anos 1980 e os anos 1990, DJs e produtores de Memphis gravaram em casa, venderam fitas na janela do clube e viram cópias piratas levarem o som para fora da cidade. A fita cassete não foi só o suporte: foi parte da estética.

A fita cassete nasceu de uma medida de bolso. No começo dos anos 1960, o engenheiro holandês Lou Ottens chefiava o desenvolvimento de produtos da Philips na Bélgica e queria substituir os gravadores de rolo, caros e desajeitados, por algo que coubesse no bolso interno de um paletó. Para fixar o tamanho, usou um bloco de madeira. A Philips apresentou o resultado em 1963. Segundo o documentarista Zack Taylor, ouvido pela NPR, foi Ottens quem defendeu que a empresa liberasse o formato para outros fabricantes sem cobrar licença, e foi assim que a fita se espalhou pelo mundo como padrão. Em 1º de julho de 1979, a Sony pôs à venda no Japão o primeiro Walkman, o TPS-L2, e a fita passou a andar com as pessoas.
Ottens, que morreu em março de 2021, aos 94 anos, nunca foi sentimental com a invenção. Segundo a NPR, ele considerava a fita um formato primitivo, sujeito a ruído e distorção. É uma ironia que vale guardar. Trinta anos depois da apresentação da Philips, em Memphis, no Tennessee, o ruído e a distorção da fita virariam parte de um som.
A janela do clube
Boa parte das histórias do rap de Memphis começa com um adolescente na cabine de DJ. Antonio Kimbrough, nascido em 1970, adotou o nome DJ Spanish Fly e, aos 15 anos, já tocava no Club Expo, onde misturava rap e new wave com scratches e rimas próprias. A Red Bull Music Academy registra que ele também tocou no Club No Name, a primeira casa da cidade a programar rap.
O método dele ajuda a entender o que veio depois. Em entrevista à revista SPIN, publicada em agosto deste ano, Spanish Fly contou que montava as bases à mão: achava uma batida num disco antigo, gravava num aparelho de som portátil, voltava o vinil e repetia, compasso por compasso. Um dia de trabalho rendia quatro ou cinco minutos de música. Depois gravava seus sets em fita e passou a enfiar músicas próprias entre os sucessos, primeiro uma, depois duas ou três, até que as fitas fossem só dele. Segundo a Red Bull Music Academy, ele vendia as cópias na janela da frente dos clubes onde tocava; a SPIN conta que também rodava a cidade de Cadillac, entregando fitas a quem desse uma contribuição.
“Você não conseguia essa música se não soubesse como conseguir essa música”, disse ele à SPIN. A frase descreve a economia da cena. Não havia download nem streaming, lembrou ele: havia a fita, quem a vendia e quem sabia onde encontrá-la.
Cópia de cópia
Logo apareceram os piratas. Spanish Fly contou à SPIN que eles ganharam mais dinheiro com as fitas dele do que ele próprio, e que levaram as cópias para Nova Orleans, Atlanta e St. Louis sem que ele soubesse. A pirataria, nesse caso, funcionou como rede de distribuição.
Cada cópia de fita somava um pouco mais do ruído de que Ottens reclamava. A Red Bull Music Academy descreve as fitas de Memphis do começo dos anos 1990 como chiadas e sibilantes, muitas vezes sem mixagem, sem masterização, sem capa e sem lista de faixas, mas em geral com o telefone do artista impresso para quem quisesse contratá-lo. O que para Ottens era defeito virou assinatura.
A batida que veio de Nova York
Um dos sons que mais circularam nessas fitas nem era de Memphis. Em 1986, a dupla Showboys, formada por Orville Hall e Phillip Price, de Hollis, no Queens, gravou “Drag Rap”, uma história de gângsteres inspirada na série policial Dragnet, com uma bateria Roland TR-808 aparecendo nas estrofes. Em Nova York, o disco passou quase despercebido. No Sul, ganhou outro nome, Triggerman, e outra vida.
Tanto a Red Bull Music Academy quanto o verbete da Wikipédia sobre o beat creditam a Spanish Fly o uso pioneiro da faixa na região. Em Memphis, ela virou trilha da dança local, o gangsta walk. Em Nova Orleans, o padrão de 808 da faixa virou base do bounce, gênero de pista da cidade. A Red Bull Music Academy cita a contagem do site WhoSampled, de mais de 160 músicas que usam “Drag Rap”, e diz que o número está abaixo do real.
A oficina
Se Spanish Fly abriu o caminho, DJ Squeeky deu a ele um padrão de produção. Em entrevista ao jornal Memphis Flyer, Squeeky contou que começou a produzir inspirado nas mixtapes de Spanish Fly e que foi dos primeiros a colocar fitas de rap nas lojas da cidade, como a Mr. Z’s. Entre as máquinas que usou, cita uma bateria eletrônica Boss DR-660 e um sampler SP-1200. A Red Bull Music Academy descreve as batidas dele como as que definiram o começo da cena, e o site The A.V. Club lembra que o crédito pela invenção do som costuma ser dividido entre ele e Spanish Fly.
Da mesma cena saiu o grupo que levaria Memphis mais longe. DJ Paul, Juicy J e Lord Infamous o formaram em 1991, ainda com outro nome. As primeiras mixtapes de DJ Paul e Juicy J eram, segundo a Red Bull Music Academy, mixagens de músicas alheias, em especial de Squeeky e de quem gravava com ele. Squeeky disse ao Memphis Flyer que o grupo refez músicas dele e tirou samples das mixtapes dele; a Red Bull Music Academy considera a queixa justa, ainda que exagerada. Em 1995, já como Three 6 Mafia e com mais integrantes, o grupo lançou Mystic Stylez pelo selo próprio, Prophet Entertainment, com imagens de horror e ocultismo que, segundo o A.V. Club, marcaram a produção da cidade até o fim da década.
As letras dessa produção falam de drogas, crime e violência, muitas vezes de forma extrema. O A.V. Club lê o diabo e o terror dessas fitas como metáfora para depressão, ansiedade e a pressão da vida na cidade, e apoia a leitura no depoimento de um produtor da cena, Lil Grimm. As duas coisas cabem na mesma fita.
Para fora da cidade
Em 5 de março de 2006, o Three 6 Mafia subiu ao palco do Oscar para receber o prêmio de melhor canção original por “It’s Hard Out Here for a Pimp”, do filme Hustle & Flow, dirigido por Craig Brewer, de Memphis. Foi o primeiro grupo de hip-hop a vencer nessa categoria, segundo a XXL. A Variety descreveu a vitória como um caso isolado na história da premiação.
A influência mais duradoura, porém, correu por baixo. O A.V. Club aponta o rap de Memphis como influência sobre a cena de Atlanta, e por esse caminho sobre o crunk, o trap e, mais tarde, o rap feito para plataformas como o SoundCloud. As fitas originais, que circulavam de mão em mão e saíam do porta-malas de carros, ficaram raras. Em 2019, o A.V. Club já registrava colecionadores, a maioria na Europa, pagando por elas online valores impensáveis duas décadas antes.
Em 2026, parte desse arquivo começou a sair das fitas. O selo untitled (recs) lançou Cadillac Warning, uma coletânea de gravações de Spanish Fly que, segundo a SPIN, só existiam nas mixtapes. É a primeira de outras que ele diz ter a caminho.
O suporte como estética
A história do rap de Memphis mostra que o formato não é neutro. A fita permitiu gravar em casa, copiar sem pedir licença, vender na janela do clube e carregar no bolso. Também impôs chiado, perda a cada cópia e a ausência de qualquer acabamento de estúdio. Quem produziu ali não escondeu essas marcas. Fez delas o próprio som. O engenheiro que desenhou a fita a achava ruidosa demais. Os DJs de Memphis descobriram o que fazer com esse ruído.
Fontes
- The Man Who Invented The Cassette Tape Has Died; Lou Ottens Was 94 — NPR. Acesso em 30/09/2026.
- Lou Ottens, Inventor of the Audio Cassette Tape, Dead at 94 — Rolling Stone. Acesso em 30/09/2026.
- The Sony Walkman turns 40 — Malay Mail (AFP). Acesso em 30/09/2026.
- Walkman — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
- The Unsung Heroes of Early Memphis Rap — Red Bull Music Academy Daily. Acesso em 30/09/2026.
- DJ Spanish Fly Built Memphis Hip-Hop By Giving Away Tapes From His Cadillac's Trunk. Now He's Getting the Credit He Deserves — SPIN. Acesso em 30/09/2026.
- DJ Spanish Fly — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
- Loop History: The Showboys "Drag Rap," AKA Triggerman — Red Bull Music Academy Daily. Acesso em 30/09/2026.
- Triggerman (beat) — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
- Throwback Thursday: DJ Squeeky Talks Memphis Rap — Memphis Flyer. Acesso em 30/09/2026.
- These Memphis rap tapes aren't actually haunted, but they are awesome — The A.V. Club. Acesso em 30/09/2026.
- Mystic Stylez — Wikipedia. Acesso em 30/09/2026.
- Three 6 Mafia Remember Their Shocking Oscar Win for 'It's Hard Out Here for a Pimp' — Variety. Acesso em 30/09/2026.
- Three 6 Mafia Win Oscar for 'It's Hard Out Here for a Pimp' in 2006 — Today in Hip-Hop — XXL. Acesso em 30/09/2026.
- DJ Spanish Fly announces new album, Cadillac Warning — Resident Advisor. Acesso em 30/09/2026.
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