ReportagemCultura
Gonzaguinha, só com a própria voz
Kikito de melhor documentário em Gramado, o filme de Susanna Lira chegou aos cinemas em 3 de setembro e conta a trajetória do compositor sem ninguém falando por ele.

Documentário sobre músico costuma ter dois andares. Embaixo, a obra. Em cima, gente explicando a obra: parceiros, críticos, família, fãs. “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”, de Susanna Lira, tira o andar de cima. Quase não há depoimento gravado para o filme. Quem fala é Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, em entrevistas de arquivo e aparições na televisão. Fotografias pessoais e imagens do país completam o quadro, e o que liga uma cena à outra são as canções dele.
O longa ganhou o Kikito de melhor documentário no 54º Festival de Cinema de Gramado, em cerimônia no dia 22 de agosto. A sessão em Gramado, a primeira no Brasil, estava marcada para dois dias antes, 20 de agosto, no Palácio dos Festivais, na mostra competitiva de longas documentários. Em 3 de setembro, entrou no circuito comercial, com distribuição da Synapse. Tem 78 minutos.
A regra do filme
A diretora resumiu a escolha ao jornal O Tempo: “O filme não tem nada que não tenha sido dito por ele”. A regra vale até para as dramatizações. O ator André Dale interpreta Gonzaguinha em cenas tiradas do que o compositor disse ao semanário alternativo O Pasquim e, segundo a diretora, o que o ator fala ali também saiu da boca do biografado. Dale já fizera o papel do compositor em “Homem com H” (2025), a cinebiografia de Ney Matogrosso.
O efeito é um retrato sem intermediário. Quem chega sem conhecer o artista não encontra uma cronologia montada para ensinar. Quem conhece percebe que as canções mudam de função: deixam de ilustrar a biografia e passam a organizar o filme. Cada música entra como documento do momento em que foi feita.
Música como documento
O recorte vai do meio dos anos 1960 ao fim dos 1980: ditadura, abertura, volta à democracia. O Tempo registra que mais de 50 canções dele foram barradas pela censura durante a ditadura. Fora da política, o filme olha para dois assuntos pessoais: a fama e o sobrenome. Gonzaguinha era filho de Luiz Gonzaga, e a carreira dele foi também a construção de uma assinatura que fosse só sua.
Gonzaguinha morreu em 1991, aos 45 anos, depois de um acidente de carro no Paraná.
Quem fez
Rodrigo Alzuguir cuida de roteiro e pesquisa. Ítalo Rocha responde por montagem, desenho de som e pesquisa adicional, e Rafael Mazza, pela fotografia. O filme sai pela Modo Operante, produtora fundada por Lira; ela e Tito Gomes assinam a produção. O elenco tem ainda Ernesto Leão e Gedivan Albuquerque. Lira dirigiu antes filmes como “Torre das Donzelas” (2018) e “Mussum, Um Filme do Cacildis” (2018).
Por que interessa a quem faz música
O filme mostra um caminho que vale para qualquer artista com acervo: entrevista, programa de TV, recorte de jornal e gravação, bem montados, sustentam um longa inteiro sem que outra pessoa precise traduzir a obra. O arquivo, aqui, não é enfeite de abertura. É a estrutura.
Ficha
“Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” · Brasil · documentário · 78 min · direção de Susanna Lira · roteiro e pesquisa de Rodrigo Alzuguir · montagem e desenho de som de Ítalo Rocha · fotografia de Rafael Mazza · produção Modo Operante · distribuição Synapse Distribution · Kikito de melhor documentário no 54º Festival de Cinema de Gramado · nos cinemas desde 3 de setembro de 2026.
Fontes
- Documentário sobre Gonzaguinha aponta para uma obra ainda atual — O Tempo (Paulo Henrique Silva). Acesso em 30/09/2026.
- Festival de Cinema de Gramado 2026: veja os vencedores da 54ª edição — CNN Brasil. Acesso em 30/09/2026.
- Documentário sobre Gonzaguinha estreia no Brasil durante o Festival de Gramado — Mirada. Acesso em 30/09/2026.
- Gonzaguinha abre o coração em documentário — Matinal (Roger Lerina). Acesso em 30/09/2026.
- Gonzaguinha, da Maior Liberdade (ficha técnica) — AdoroCinema. Acesso em 30/09/2026.
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